Acho graça quando você fala aquelas coisas. Você me vê de um jeito que
não consigo entender. Me acha mais bonita do que realmente sou. Me acha mais
inteligente do que sou. Me acha mais forte do que sou. Me acha mais incrível do
que sou. Desculpa, não quero te decepcionar, mas não sou tudo isso. Sei que
você conhece meus defeitos, minhas falhas. Mas não entendo como essas coisas
não te abandonaram com o passar dos anos. Fico rindo quando você fala que tenho
cara de boneca, que meu nariz é perfeito, que minha boca é perfeita, que meus
olhos são perfeitos, que meu rosto é todo belo. Não acho tudo isso, falo sério.
Não sou essa belezura toda, não sei da onde você tira essas ideias malucas. E,
pelo amor de Deus, não sei de tudo, eu tenho minhas limitações, não sou essa
inteligência e esperteza toda. Eu conto nos dedos e uso calculadora. Não sei
onde fica a Guiana Francesa. Não entendo nada de política. Sempre me embanano
no horário de verão, nunca sei se adianto ou atraso o relógio. Também fico
pensando “ih, agora nem são 22:31, são 21:31”, penso com o horário antigo. Não
sou forte o tempo inteiro e não gosto de admitir isso, então não espalha. Eu
sou fraca às vezes. Muitas vezes. Sou frágil e estou frágil agora. Tenho
passado momentos não tão incríveis, não tão legais. Sei que vou superar, mas
nem sempre acho força, então me fecho. Não quero ajuda de ninguém, sou uma
filha da puta orgulhosa que não sabe pedir colo, quero que adivinhem. E eu
preciso muito agora de alguma ajuda, uma mão na cabeça, alguém que esteja ao
meu lado. Luto contra um ego chato, que muitas vezes me passa a perna. Tem dias
que me acho o máximo, em outros me acho um lixo. Mas sei que mulheres são
assim.”

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