Era
por volta das 23:00 e você apareceu. Logo você, quem eu não queria ver naquela
hora. Descobrir que você havia me traído tinha sido a pior coisa do meu ano.
Mantive meu celular desligado por uma semana, não usei nenhuma rede social. Me
mantive o mais longe possível de você. Mas você sabia onde era a minha casa,
afinal, você já havia dormido nela no mínimo umas dez vezes. Conhecia cada
canto do meu quarto, cada canto da sala e do pequeno sofá que a gente insistia
em dividir. Você conhecia cada canto meu. Mas nada disso te impediu de me
trair. Ficar afastado de você - tentar pelo menos - estava sendo bom. Mas aí
você resolve aparecer na minha porta no dia da semana que eu sempre estou
sozinho em casa e dizer que voltou. Voltou pra quê? Pra me decepcionar mais uma
vez? Voltou pra dizer que sente a minha falta?
Não sei o que foi pior: te
ouvir dizendo que voltou ou ver que você estava com um baita de um sorriso na
cara. Era coisa demais pra minha cabeça, eu mal tinha aberto a porta e você já
foi entrando, como se ainda fosse ao meu namorado. sentou e ficou me olhando com uma cara de:
“você não vai sentar aqui do meu lado?” Eu me neguei, mas a verdade é que eu
queria, e muito.
- Não, não vou me sentar do
seu lado. Esse sofá é muito pequeno.
- Pare de bobagem, sempre
deitamos eu e você nesse sofá. Vamos, sente logo aqui do meu lado.
- Eu já disse que não vou.
E o que é que você está fazendo aqui? Você sabe que não temos mais nada.
- Não temos? Então quer
dizer que 3 anos de namoro acabam assim?
- “Assim.” Não, não acaba “assim”. Acabou em uma traição. E não
adianta fazer essa cara, revirar os olhos e me olhar torto, você me traiu.
- Ah, foi só um beijo com
uma ex minha.
- “Só um beijo”. Olha o tom
que você usa para falar disso, parece que não foi nada de errado. Mas foi. E o
pior, foi com o sua ex que eu mais odeio.
- Martin, temos 19 anos,
nós dois. Acho que podemos crescer um pouco e ver que isso realmente não foi
nada de errado. Ok, talvez tenha sido errado, mas eu estava bêbado.
- Bêbado? É essa a desculpa
que você me dá?
- Você sabe que eu não sou
de beber, e sabe o quanto eu sempre te amei.
- Aí é que está. Eu sempre soube o quanto você
me amou. E é por isso que eu não me conformo. Você sempre fez inúmeras juras de
amor, sempre provou o seu amor por mim, e de repente faz uma merda dessa. Você
simplesmente acabou com três anos de namoro. Não tô falando de um ou dois
meses, tô falando de três anos. Três dos melhores anos da minha vida até hoje.
E agora eu olho para trás e vejo que esse tempo virou em nada. Todas as
memórias trazem dor, todas as fotos me fazem chorar e todas as malditas músicas
que eram nossas me fazem pensar no tempo que desperdicei com você. Será
que você consegue colocar na tua cabeça que não vai ser chegando às onze horas
da noite na minha casa e sentando no sofá que a gente deve ter transado no
mínimo umas 15 vezes e achar que tudo vai voltar ao normal. Será que você
consegue entender isso?
- Eu entendo perfeitamente
tudo isso. Entendo que você sinta raiva e tudo mais. Eu te conheço muito bem.
Te conheço muito mais que você mesmo. Sei muito bem que você deixou o celular
desligado e não leu nenhuma das 25 mensagens que te deixei no facebook porque
queria que eu aparecesse aqui. Você acha mesmo que eu não te conheço? Sei muito
bem que você passou o dia olhando pra fora da janela, porque você sabe que eu
sei que hoje é o dia que você fica sozinho em casa. Você queria que eu
aparecesse. Sei muito bem que quando toquei a campainha você estava lendo
aquele livro que comprou há um mês, naquela livraria cheia de mofos e com um
vendedor de no mínimo 80 anos, quando fomos pra capital. Sei que quando
desligou seu celular a sua vontade era de manter ele ligado. Mas sei que
recusaria as minhas duas primeiras ligações, mas quando eu te ligasse pela
terceira vez você atenderia com um tom grosso e sem educação. Mas eu sei que na
verdade o seu coração estaria batendo rápido só por ouvir a minha voz. E sim, o
meu coração estaria batendo mais rápido ainda só pelo fato de você ter atendido
o telefone. Sei que você está usando a camiseta que te dei de aniversário por
baixo desse seu moletom surrado.
- Ah, mas isso é só uma
coincidência.
- Não, não é. Você sempre
usa ela quando a gente briga. Você acha que eu não sei disso? Você a usa porque
é uma maneira de se manter perto de mim, mesmo quando estamos longe. Sei que
você não tem comido direito e que passa maior parte do dia trancado no quarto.
E ah, deixe me ver esses seus braços. É, você se cortou de novo. Como pôde
fazer isso? Não acredito nisso.
- Você acha que eu ia me
cortar de novo por causa de você? Isso aqui é um arranhão de quando fui ajudar
meu pai a podar as árvores. Você é muito convencido.
- Não, eu não sou
convencido. Eu só conheço tudo sobre você, absolutamente tudo.
- Se você conhece tanto
assim sobre mim, eu te aceitarei de volta?
- Certamente sim.
- Pois você errou. Eu não
te quero de volta. Essa semana que eu passei longe de tudo me fez muito bem. Eu
abri meus olhos, se é que você me entende. Eu finalmente enxerguei que não
fomos feitos um para o outro. E eu até fico feliz com isso. Três anos… Muito
tempo, não é? Mas é uma pena que você tenha os jogado no lixo. Não adianta
chorar, já está decidido.
Ah se ele soubesse que o
que eu estava lhe dizendo era só mais um teste. Um último teste. Quem me dera
se ele tivesse me dito que não queria jogar mais nada fora, que recomeçaríamos
do zero mais uma vez. Eu não ligava. Eu o perdoava, mas ele tinha que passar no
teste. Ele tinha que me dizer que iria mudar. Mas as coisas não aconteceram como
eu queria.
- Então você me quer fora
da sua vida? - Disse ele ao levantar do sofá - Pois então farei isso.
Me doeu ao ver que ele não
iria passar no teste. Me doeu ao ver que ele estava caminhando em direção à
porta. Mas eu achava que seria como as outras vezes em que eu contava os seus
passos: “1, 2, 3 e você voltava correndo
para os meus braços e me dava um último beijo.” Mas dessa vez não foi assim.
“1,
2, 3, 4, 5, 6… E você não voltou.’’